Porquê uma vida despojada?

Algures no passado li uma frase que dizia "É engraçado como a cada dia parece que nada muda, mas de repente daí a um ano, tudo mudou." Não lembro quem escreveu (tão raro em mim!) mas este conceito ficou comigo, e vem-me à mente muitas vezes. Acho que nunca mudei tanto num ano como em 2019. E chego ao final deste ano com uma vida despojada de tudo aquilo que me pude desprender.

Hoje em dia afinal agarramo-nos a tudo. A culpa nem é nossa. A sociedade é assim não é? E vivemos com a vida atravancada de coisas, de actividades, de afazeres, de pessoas, de informação.

Ah, a informação. Quem me conhece sabe a alma sedenta de conhecimento que eu sou. Conhecimento sobre tudo mesmo. Eu uma vez vi um documentário que explicava como é que os pensos higiénicos são feitos. É sério, não estou a gozar!

Durante este ano de 2019 tive que fazer uma paragem forçada e estive de baixa dois meses. Eu nunca tinha estado de baixa, tirando os meses da gravidez. Eu nem sabia o que tinha que fazer com os papéis da segurança social, para imaginarem o quão estranha era a situação para mim. E quando fui obrigada a parar, a única coisa que eu conseguia dizer ao meu marido era " a minha cabeça não se desliga".

Esse foi o meu ponto de paragem, a minha travessia de Rubicon. (*ver nota de rodapé porque um "bocadinho" de informação também não faz mal não é?) Foi aí que decidi dar um passo além nesta busca por uma vida despojada. Comecei a desprender-me de objectos que estavam aqui por casa parados e a oferecer tudo o que não me fazia falta.  E agora a minha casa pequenina tem espaço. Vim para casa e agora estou com a minha filha a tempo inteiro. Não trabalho, temos menos rendimento mas o nosso horário agora tem espaço. Iniciei um plano de finanças pessoais, vendo-me livre de despesas desnecessárias e embora tenhamos menos rendimento, o nosso orçamento agora tem mais espaço de manobra. Estou de dieta, a lutar para ver-me livre de comidas desnecessárias e agora o meu prato tem espaço.

A vida despojada é isso. Uma vida com espaço. Espaço para brincar, espaço para fazer o pino, espaço para comer salada, espaço para respirar fundo, e espaço para tomar um banho de vinte minutos.

* O Rubicon é um pequeno curso de água a norte de Roma, e que não deveria ser atravessado pelos generais com as suas tropas. Atravessá-lo era declarar guerra e foi o que fez Júlio César em 49 a.c., tornando inevitável o conflito. Atravessar o Rubicon é portanto, tomar uma decisão irrevogável e dizer ao mundo como Júlio César Alea jacta est: os dados estão lançados.

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