Como simplificar as refeições da família - Parte 1

 Volta  e meia alguém me pede dicas acerca da forma como organizo a nossa alimentação aqui em casa. Já uma vez fiz aqui um relatório acerca de como eu preparo as refeições todas da semana (ou o máximo que conseguir) num bloco de cerca de duas horas (ver post anterior A comida da semana em duas horas e meia).

A semana passada partilhei de novo no instagram acerca deste método e lá tornaram a fazer as perguntas de sempre:

- usaste bimby?

- que ementa fizeste?

- quais os passos?

Lá ia eu toda lampeira tornar a fazer outro relatório semanal, quando "caiu a ficha" e percebi que não faz muito sentido eu fazer estes relatórios se quem me lê não compreende os princípios base por trás dos mesmos.

Então como é que eu posso simplificar a minha cozinha?

1- Simplificar aquilo que comes

Não estou a falar de tirar coisas de uma embalagem e comer, muito pelo contrário. Ter uma alimentação simples, para além de ser melhor para a saúde e para a carteira, também poupa muito tempo. 

Aqui em casa somos vegetarianos (ovovegetarianos, vá), mas fazemos uma alimentação plant-based e o mais simples possível. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que num carrinho de compras com 50 artigos, 45 deles são frutas e legumes frescos. E 2 são legumes congelados. 

Também comemos as coisas com o mínimo de temperos. Eu gosto do sabor da comida. Brócolos, têm que saber a brócolos. Muitas vezes comemos legumes cozidos a vapor como acompanhamento (sem sal, sem azeite, sem saltear, só o legume cozido a vapor). Sei que para muita gente isto será estranho, mas a verdade é que tudo é uma questão de hábito. 

No entanto não quero com isto dizer que tens que comer legumes cozidos a vapor todos os dias. Mas sabem porque é que eu detesto livros/cursos de receitas vegetarianas? A maior parte das receitas são extremamente elaboradas, têm 300 passos, e usam ingredientes importados do Quénia, como se a minha avó portuguesa, há 60 anos atrás não fosse perita em fazer refeições vegetarianas como o que a terra lhe dava, porque a vida assim a obrigava. 

Se perdes demasiado tempo na cozinha, simplifica. Bifes de seitan caseiro com broa em cama de espinafres salteados? Isso é prós dias de festa. Massa à lavrador? Manda vir.*

2- Acervo de receitas (tuas, não as dos outros)

Quando casei e comecei a ter que cozinhar a sério diariamente, era um desafio chegar a hora de cozinhar e pensar "o que é que eu vou fazer?" A agravar o facto de eu ter um marido que literalmente não gosta de comer, não sabe cozinhar, e cujas sugestões vão do "arroz" ao "batata não!". Um dia ele virou-se para mim e disse: "porque é que não escreves uma lista de todas as comidas que sabes/costumas fazer (só a lista! não precisas de escrever as receitas!) e quando não souberes o que fazer, olhas prá lista."

Assim fiz e na minha lista, para além de escrever o nome do prato em si ainda assinalei se ele era mais adequado para almoço, jantar ou ambos. Escolher o que fazer agora leva apenas o tempo de abrir a capa e olhar de relance para a lista. 

3- Fazer um menu

Se ainda não fazes um menu semanal está na hora de o fazeres. Nunca conseguirás rentabilizar o teu tempo na cozinha e nas compras, bem como a tua carteira sem um menu semanal. 

Muitas pessoas optam por gerir o seu menu de acordo com as promoções da semana. Eu não ligo a nada disso. Repara: é mais uma vantagem da alimentação vegetariana. Não dependemos de promoções. 

Primeiro porque a maior parte das receitas usa ingredientes que:

- nunca estão fora de época e portanto custam sempre o mesmo, ou têm variações de preço muito pequenas (ex: feijão, tofu, ovos, lentilhas, ...) Quando foi a ultima vez que viste lentilhas com 50% de desconto em cartão? Nunca. Essas promoções existem para a não-comida: as bolachas, as pizzas congeladas, os sumos, etc etc etc

- São sazonais, mas são facilmente intercambiáveis. Há feijão verde? Esta semana os legumes salteados são com feijão verde. Não há feijão verde? São com espargos. Não há espargos? São com brócolos.

4- Não tenhas medo de comer comida repetida, nem comida congelada.

Como eu já faço isto há algum tempo, isso quer dizer que embora eu faça sempre um menu semanal de 7 almoços e 7 jantares, eu não cozinho sempre 7 almoços e 7 jantares por semana. Por exemplo, esta semana, fiz 14 refeições, sendo que eram apenas 4 almoços e 10 jantares. Noutras semanas cozinho por exemplo 6 jantares e 9 almoços. Os excedentes vão sendo congelados e são depois usados nas semanas seguintes, à medida que deles necessito. 

A única razão pela qual eu consigo cozinhar tudo de uma vez só é esta: Nós comemos dois dias seguidos a mesma coisa. E comemos comida congelada sem problema nenhum. (ou melhor, descongelada e depois aquecida/finalizada, não somos malucos!).


5- Usa um padrão para as vossas refeições. 

Regra geral estipulo 3 refeições principais/semana o que vai perfazer 6 almoços. Estipulo também 3 sopas por semana (que perfaz 6 jantares).

Já deves ter reparado que o pequeno almoço é a única refeição que eu não faço adiantada. 

Quanto ao almoço e ao jantar, eles seguem um padrão definido:

ALMOÇO: Salada (preparada na hora) + fonte de hidratos/cereal (arroz, massa, quinoa, ...) + fonte de proteína (leguminosas, tofu )+ legumes (salteados, cozidos, incorporados na proteína ou não)

JANTAR: Sopa + pão + extra. O extra é só para o marido e as filhas que têm um metabolismo 500 vezes mais rápido que o meu. Pode ser quiche, pode ser frittatas, basicamente um acompanhamento salgado para o pão e a sopa, e que vai variando. O meu jantar é só sopa, pão e fruta.

Então e a sétima refeição? O sétimo almoço deixo sempre por preencher no meu menu, porque há sempre um dia que 

-temos restos a mais para comer, 

-vamos comer a casa de alguém, 

-apetece algo diferente,

- simplesmente apetece-me cozinhar.

O sétimo jantar também deixo por preencher no menu porque acaba por ser o dia em que fazemos pizza (uma das actividades preferidas das miudas) ou batatas com hamburguer, por exemplo. Gosto de ter uma pizza caseira preparada no congelador para uma eventualidade, mas a verdade é que elas gostam de o fazer comigo, então é daquelas coisas que não me importo de não ter adiantado. 

 Dicas finais:

- nem todas as comidas congelam bem. Quando elaboro o meu menu, se vou fazer alguma comida que não vai congelar bem, reservo essa comida para comer no próprio dia e refrigerar para o dia seguinte. Normalmente opto por deixar para os outros dias as coisas que congelam/descongelam sem grandes alterações de sabor.

- comidas de forno são o que congela melhor. Assados, lasanhas, almondegas, hamburgueres, rissois, quiches, tartes, etc etc. Basicamente é congelar pronto, e ao colocar ao forno ela aquece/descongela e é como se estivesse acabada de fazer. 

- Arroz e quinoa cozida congelam muito bem. Esta foi uma das minhas descobertas recentes. Nunca na minha vida imaginei que arroz cozido descongelasse tão bem. Não fica perfeito como um arroz acabado de fazer, mas dependendo do acompanhamento é completamente imperceptível que ele foi congelado. Por exemplo arroz branco acompanhado com feijoada é mais do que certo que o pessoal aqui em casa vai pôr a feijoada em cima do arroz. Qualquer diferença que se sentiria entre arroz descongelado e arroz fresco torna-se nula. 

- Estufados também congelam/descongelam bem embora se tornem mais "aguados" quando se descongela, por isso há que ter isso em conta.

- Há refeições que eu opto por preparar na totalidade, outras só adianto alguns passos. Por exemplo, embora eu saiba que posso congelar a sopa pronta, nós não gostamos de sopa descongelada. É daquelas coisas que eu acho que se nota a diferença, e tendo em conta que o meu jantar é só sopa, eu quero que ela seja boa e que me saiba bem. Então o que eu faço é preparar os legumes todos (descascar, cortar,...) e montar sacos/recipientes de congelação já com as sopas "montadas" (cerca de 900 g de legumes por recipiente). No dia em que quero fazer a sopa, tiro um recipiente e ponho a cozer com 900 g de água. No fim triturar, sal e está feito. Dá para dois dias e só demoro 2 minutos com isto, dia sim dia não.

E agora vamos ao vosso...

 TPC

Faz a tua lista de comidas/receitas. Coisas que tu já sabes e gostas de fazer e comer. Mais tarde podes aprender coisas novas, mas lembra-te se o objectivo é fazer comida em pouco tempo é sempre mais fácil fazê-lo com receitas com as quais já estás  habituada. Depois de fazer a tua lista, elabora um menu para uma semana (7 almoços e 7 jantares). Falamos de novo no próximo post!


*No primeiro rascunho deste texto escrevi "bring it on" e depois pensei? Mas porque raio não estou a escrever em português? "Manda vir" e não se fala mais nisso.

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